terça-feira, 22 de março de 2011

Lição 13 - Paulo Testifica de Cristo em Roma (A Viagem)

Paulo Viaja para Roma (Atos 27:1-12)

Extraído do Livro: Novo Comentário Bíblico Contemporâneo Atos, David J. Williams

Como peça literária, esta história descritiva da viagem e naufrágio nos mostram Lucas no ápice, sendo um clássico de sua espécie na literatura antiga. Lucas tem sido acusado de inventar essa história, ou de pelo menos haver adaptado um conto já existente, para seus propósitos pessoais. Todavia, James Smith há muito tempo demonstrou que a precisão da narrativa, em termos de geografia, condições atmosféricas e arte de navegação é de tal ordem que não poderia ser outra coisa senão o registro de uma viagem real (p. xxxii), enquanto o emprego da primeira pessoa é indicativo genuíno de que a viagem foi feita na companhia do próprio autor.
O prazer do viajante em relatar aventuras, e o fato de as histórias a respeito de naufrágios serem coisa da moda nos dias de Lucas, seriam suficientes para explicar a extensão da narrativa. Todavia, a estas suges­tões poderíamos acrescentar mais uma, a de que Lucas tinha em mente a crença popular segundo a qual o mar se vinga dos perversos (cp. 28:4) e que, por isso, Lucas teve um prazer especial ao contar uma
história de livramento. Mas é possível, ainda, que Lucas estivesse criando um paralelismo com o relato do evangelho (veja a disc. sobre 19:21-41), e que ele houvesse narrado a história pormenorizadamente como corres­pondendo à história da morte e ressurreição de Jesus (usando a tempestade e a segurança de Malta). Entretanto, seja qual for o motivo propulsor de Lucas, deixou-nos ele uma história maravilhosa da "misericórdia que nos acompanha", sem a qual Paulo jamais teria chegado a Roma.
27:1 / Se Festo houvesse chegado à Judéia no começo do verão do ano cm que tomou posse (digamos, no ano 59 d.C), talvez Paulo tenha sido colocado a bordo do navio no fim do verão ou no outono desse mesmo ano. Observe-se que se reinicia o relato na primeira pessoa do plural (ocorre pela última vez em 21:18), e a inclusão um tanto displicente que Lucas faz de si próprio na decisão das autoridades romanas de enviar os prisioneiros a Roma. Esta decisão não dizia respeito só a Paulo, embora 0 grego de Lucas possa estar fazendo distinção entre o apóstolo e os demais (num sentido muito estrito, a palavra significa "outros de natureza diferente"; teriam já sido condenados? ). Os prisioneiros foram colocados sob a guarda de uma escolta comandada por um centurião chamado Júlio, da corte augusta (NIV traz "do Regimento Imperial"). Essa escolta tem sido identificada como a Corte I Augusta, um regimento que, segundo inscrições, esteve na Síria após o ano 6 d.C, e na Batanéia (Basã, a leste da Galiléia) no tempo de Herodes Agripa II (cerca de 50-100 d.C). É possível que um destacamento dessa corte se houvesse aquartelado na Cesaréia. As obrigações atribuídas a Júlio normalmente cabiam aos centuriões.
27:2 / A rota mais usada para ir a Roma passava por Alexandria, mas nessa ocasião Júlio conseguiu passagens para seus homens num navio de Adramítio, que estava prestes a navegar em demanda dos portos da costa da Ásia. Num desses portos tinham certeza de encontrar um navio de partida para Roma ou, em não havendo nenhum, descobririam meios em Adramítio de chegar à Grécia, atravessá-la e chegar assim à Itália. Adramítio era metrópole da região da Mísia, na província da Ásia, situada no golfo que lhe dera o nome (veja a disc. sobre 20:13). Lucas acrescenta que Aristarco, macedônio, de Tessalônica, estava com eles. Havia sido um dos delegados que acompanharam Paulo a Jerusalém (20:4; cp. 19:29), que talvez agora estivesse regressando à Macedônia, intencionando despedir-se de Paulo e Lucas em algum ponto da viagem. Por outro lado, ele é mencionado em Colossenses 4:10 e em Filemon 24 como tendo estado com Paulo em Roma. É possível, portanto, que ele houvesse acompanhado os irmãos nessa viagem, embora não seja men­cionado mais em Atos. Ramsay pensa que Aristarco e Lucas devem ter-se considerado "escravos" de Paulo, a fim de poder permanecer com o apóstolo (Paul, p. 316). Todavia, este navio não era militar, para trans­porte de tropas, não havendo razão para supormos que esses dois com­panheiros não houvessem comprado suas passagens como viajantes normais. Ehrhardt (p. 124) toma literalmente a descrição que Paulo faz de Aristarco em Colossenses 4:10, como quem "está preso comigo", e supõe que tenha sido remetido a Roma, com Paulo, para julgamento.
27:3 / O primeiro porto a que chegaram foi Sidom, a mais de cem quilômetros de Cesaréia e a cerca de quarenta quilômetros ao norte de Tiro. Embora já houvesse visto melhores dias, esta antiga cidade ainda florescia sob o domínio romano. Tinha agora uma (pequena) comunidade cristã (cp. 11:19), evidentemente conhecida de Paulo desde tempos anteriores (11:30; 12:25; 15:3), e o centurião permitiu a esses crentes que visitassem Paulo na praia, concessão habitual; poderíamos aceitar a sugestão de que o grego deveria ser traduzido "permitiu que seus amigos o visitassem" a bordo. Seja como for, aos crentes sidônios foi permitido que cuidassem dele — talvez com alimentos e outras ofertas para a viagem. Caso Paulo fosse à praia, é evidente que iria escoltado.
27:4-5 / O navio se fez ao mar de novo, navegando para leste e depois para o norte de Chipre, a fim de evitar os ventos de oeste e de noroeste do verão e início do outono. Dois anos antes esses ventos ajudaram Paulo a atravessar bem, até o lado oposto (21:2s.). Mantendo-se próximos da costa, tiravam vantagem dos ventos praianos e da corrente que vai para o oeste. Assim foi que o navio navegou devagar ao longo da costa da Cilícia e da Panfíüa, até chegar a Mirra, na Lícia (v. 5). De acordo com o texto ocidental, esta parte da viagem demorou quinze dias, o que seria razoável (cp. Luciano, Navigium 7). Mirra situava-se no rio Andraco, a cerca de cinco quilômetros do mar. Seu porto chamava-se Andriaca, mas o uso comum incluía o porto de Mirra, como Lucas faz aqui. Sob os romanos, quando Lícia era uma província separada, Mirra era sua capital (veja a disc. sobre 13:13).
27:6 / Aqui o centurião encontrou um navio de Alexandria com destino à Itália, e para ele mandou transferir os prisioneiros. Lucas não menciona o tipo de navio, mas o fato de ele ter saído do Egito a caminho da Itália, e que sua carga era trigo (v. 38, mas cp. v. 18), indica que pertencia a uma frota de navios de cereais a serviço do governo. Nada há a estranhar que um navio assim estivesse em Mirra. Por causa da direção dos ventos contrários (veja v. 4), os navios de cereais egípcios regularmente seguiam essa rota a fim de obter espaço marítimo e apro­veitar os ventos direcionados para o ocidente.
27:7-8 / Parece que de fato os ventos contrários sopravam quando o navio saiu de Mirra. Foi, portanto, com dificuldade que tomaram o rumo do oeste, devagar, até chegarem a certo ponto defronte de Cnido. No quarto século a.C. esta cidade, que anteriormente situava-se mais longe, a leste, na península de Cnido, havia sido fundada de novo na ponta ocidental do promontório (o ponto mais longínquo a sudoeste da Ásia Menor). Além desse ponto eles não usufruiriam mais a proteção da terra, nem a ajuda dos ventos e correntes marítimas locais. Poderiam ter parado em Cnido a fim de aguardar condições melhores, mas decidiram conti­nuar, confiantes em que chegariam à Itália antes do término da estação propícia às viagens marítimas.
O vento de fato impediu-os de chegar direto à ilha de Cítera, ao norte de Creta, como talvez houvessem desejado. O único rumo era, então, o sul, antes que o vento noroeste soprasse, e velejar a sota-vento de Creta (v. 7). Assim foi que o navio rodeou o cabo Salmone, um promontório na face oriental da ilha (Cabo Sídero? ) e, a seguir, retomou o rumo do oeste com dificuldade, até chegar a um lugar chamado Bons Portos, na costa centro-sul de Creta, a três quilômetros a leste do cabo de Matala (v. 8). Este ancoradouro (conhecido ainda por esse nome) abre-se para o leste e sudeste, parcialmente protegido por várias ilhotas. Tal ancoradou­ro lhes teria servido de abrigo durante algum tempo, visto que a oeste do cabo de Matala ergue-se o continente ao norte, e assim eles estariam de novo expostos ao vento noroeste. Todavia, no inverno o lugar chamado Bons Portos de modo algum faz jus ao nome. Na melhor das hipóteses teria sido inconveniente; na pior delas, perigoso, visto que os ventos de leste e noroeste nessa estação sopram diretamente na baía. Lucas acres­centa que Bons Portos ficava perto da cidade de Laséia, que foi identificada numas ruínas a oito quilômetros de distância, a leste (pode ter sido a Lasos, mencionada por Plínio, Natural History 4.59; ocorre que nem Laséia nem Bons Portos são mencionados na literatura antiga).
27:9 / Aqui lançaram âncoras durante muito tempo à espera de condições atmosféricas melhores. Quanto mais esperavam, mais perigo­so ficava prosseguir viagem, porque já era quase fim de ano. Entre os antigos, a estação perigosa para a navegação estendia-se de setembro a começos de novembro (cp. Vegetius, De re Militari 4.39; Hesíodo, Works andDays 619); depois, só se faziam as viagens mais urgentes em mar aberto, cessando as demais, até a primavera. Todavia, o dia da expiação já havia passado, e esse fato teria levado Lucas e Paulo a observar o jejum que marcava aquele dia para os judeus (veja a disc. sobre 13:2-3). O dia da expiação caía no décimo dia de Tisri, o sétimo mês do ano judaico, correspondente em parte a setembro e outubro. Visto que o calendário judaico baseava-se na lua, a posição do mês variava de ano para ano, mas em 59 d.C. a data do jejum teria sido 5 de outubro, e como essa data já havia passado estavam avançados no mês de outubro com pouquíssimo tempo disponível para a navegação em segurança.
27:10 / Houve alguma discussão, portanto, quanto a se deveriam enfrentar o inverno em Bons Portos, ou tentar encontrar um lugar melhor onde fundear. Paulo apresentou sua contribuição ao debate advertindo as autoridades a que permanecessem onde estavam. Suas palavras, vejo que a viagem será desastrosa poderiam indicar um prenuncio dado por Deus (cp. vv. 21-26), mas não é preciso que as interpretemos como sendo mais do que simples prenuncio ditado pela experiência. Paulo era um viajante experimentado (cp. 2 Coríntios 11:25), sendo por essa razão, sem dúvida, que se lhe pediu a opinião, ou se nada lhe foi pedido, pelo menos foi levada em consideração. Não fica bem claro se ele fazia parte do grupo de discussão, ou se fez que sua opinião fosse ouvida através do centurião. O caso é que sua opinião deveria ter sido acatada. Porém o caso não se tornou tão mau como ele havia esperado, não havendo perda de vidas.
27:11 / Lucas nos dá a impressão de que a decisão final ficou com o centurião; os comentaristas têm suposto que assim teria sido porque o navio estava a serviço do governo. Todavia, Lucas poderia estar dizendo apenas que o centurião atendeu à opinião dos marinheiros, cuja opinião afinal ficou valendo. Outras considerações teriam sido feitas, além das condições atmosféricas, como a dificuldade para abastecer o navio em Bons Portos, havendo apenas uma pequenina cidade a oito quilômetros de distância (veja a disc. sobre o v. 8). Quais teriam sido as posições relativas aos dois marinheiros mencionados neste versículo, não ficou bem claro. Um deles poderia ter sido o dono (como dizem NIV e ECA), mas a palavra não denota necessariamente a posição de proprietário; ele poderia ter sido o capitão, e o outro, o piloto, ou navegador.
27:12 / Finalmente decidiu-se que deveriam tentar chegar a Fênice. Algumas informações dadas por Strabo (Geography 10.4) e Ptolemeu (Geography 3.17) parecem indicar que Fênice ficava no cabo Mouros, no sul de Creta, em que Lutro é o único porto de segurança; isso se enquadra bem na descrição dada por esses autores. Aqui uma península lança-se na direção do sul, com um braço que se estende para o leste, formando um porto totalmente protegido ao norte, a oeste e ao sul. Uma única dificuldade permanece na descrição que Lucas faz desse porto com Fênice, que é a seguinte: a descrição de Lucas faz o porto ficar de face para o nordeste e para o sueste, e se enquadra melhor com a baía voltada para o oeste, até hoje conhecida como Fineca através da península, desde o porto de Lutro. Os comentaristas modernos têm encontrado dificuldade em aceitar Fineca como a Fênice desta narrativa, por ser um porto muito mais pobre do que Lutro. Mas exames recentes da área sugerem que houve mudanças no contorno do litoral, desde que Lucas escreveu Atos. A baía ocidental já foi bem protegida, mas fenômenos naturais (terremo­tos) alteraram a topografia e cobriram uma enseada que se abria para o noroeste nos tempos clássicos. Ainda há uma enseada que se abre para o sudoeste e, considerando que os ventos de inverno vêm do nordeste e do leste, qualquer dessas enseadas ofereceriam abrigo razoável a um navio. Entretanto, esse mesmo vento contra o qual buscavam proteção removeria esse abrigo deles e levaria o navio à destruição.

Notas Adicionais # 67

27:3 / Ver os amigos: é tradução literal, que poderia ser designação de cristãos, como em 3 João 14. Esse termo era usado por outros grupos no primeiro século, mas seu uso pelos cristãos, se tivesse esse sentido, pode derivar do hábito de Jesus de chamar seus discípulos de amigos (cp. Lucas 12:4; João 11:11; 15:13ss.). Mas o artigo definido no grego com freqüência é empregado no sentido possessivo, que parece dar-nos a interpretação mais natural aqui — "seus amigos".
27:9 / O jejum: Têm sido feitas tentativas no sentido de identificar esse jejum com outros eventos. Parece haver pouca dúvida, entretanto, de que se trata do jejum judaico associado ao dia da expiação. Paulo usualmente marcava o tempo pelo calendário judaico (p.e., 1 Coríntios 16:8), e poderíamos esperar que Lucas fizesse o mesmo, visto estar escrevendo (assim acreditamos) numa época em que os hábitos cristãos ainda eram em grande parte derivados do judaísmo, isto é, na segunda metade do primeiro século.



A Tempestade (Atos 27:13-26)

27:13 / Havendo uma brisa soprando do sul, eles alimentavam grandes esperanças de alcançar o ancoradouro mais desejável de Fênice, a cerca de sessenta e quatro quilômetros a oeste. De início tudo correu bem, embora Lucas nos dê a impressão de que o cabo Matala só tenha sido alcançado depois de alguns momentos de muita tensão. A forma enfática pela qual ele inicia a declaração de que navegavam "mais de perto" (do que o desejável) ao longo da costa de Creta, implica a dúvida momentâ­nea por parte deles quanto a serem capazes de safar-se.
27:14-15 / Mas a seguir, ao atravessar as águas do golfo de Messara, entre o cabo Matala e Fênice, o vento de súbito virou. Um pé-de-vento, chamado euro-aquilão (gr. typhonikos, cp. nossa palavra "tufão") — desencadeou-se do lado da ilha — eis uma descrição gráfica de um fenômeno comum nas águas de Creta (J. Smith, p. 102). Os navios antigos eram incapazes de enfrentar o mar aberto, nem mesmo navegar contra o vento, como um iate moderno o faz. Com esse vento soprando sobre eles, vindo das montanhas de Creta, não tinham outra opção senão disparar adiante, pelo que se viram empurrados para o sul.
27:16 / Assim foi que chegaram à proteção de uma ilhota chamada Clauda (em alguns textos, Cauda), a moderna Gavdos, a cerca de trinta e sete quilômetros do cabo Metala. Sob a proteção temporária dessa ilhota a tripulação fez os preparativos possíveis para enfrentar a tempes­tade. Um barco ("batei") que estava sendo rebocado à popa foi levantado e colocado a bordo (cp. v. 17). Por essa altura devia estar inundado, e teria sido difícil içá-lo. O emprego da primeira pessoa do plural, usaram de todos os meios, pode significar que o próprio Lucas foi obrigado a trabalhar fisicamente, e teria escrito estas palavras com algum ressenti­mento pelo grande esforço dispendido. Que isto com certeza deve ter acontecido percebe-se pela reversão à terceira pessoa do plural, no versículo seguinte, que descreve a operação mais difícil de cingir o navio, tarefa que só a tripulação sabia realizar.
27:17 / A vela principal talvez ainda se mantivesse no lugar até agora, mas a tensão dessa enorme vela sob um vendaval teria sido superior à capacidade de resistência do casco do navio. O madeirame teria empenado e o barco soçobrado, não fosse o abrigo de Clauda. Aqui, eles passaram cordas por baixo da embarcação, cingindo o navio. No grego temos "com o uso de ajudas" — sem dúvida uma referência ao equipa­mento ("os aparelhos"), como blocos e talhas. A operação efetuada chama-se literalmente "cingir o navio", dando a impressão de que cordas teriam sido passadas verticalmente ao redor do barco, num processo denominado "amarração". A única dificuldade com que nos defrontamos é saber como conseguiram fazê-lo sob tais condições. Normalmente a "amarração" era executada estando o navio na praia. Vários comentaris­tas chegaram à conclusão de que essa operação simplesmente não poderia ter sido feita, e apresentam outras sugestões, todas as quais presumem, entretanto, que o verbo adquiriu um sentido bem mais amplo. No todo, é melhor presumir que o verbo tenha sido usado com seu significado original, total, e que os marinheiros dominavam a técnica de "amarrar" o navio até mesmo numa tempestade em pleno mar.
Eles enfrentavam dois perigos: primeiro, que as ondas gigantescas pudessem emborcar o navio, ou esmagar sua estrutura, pelo que os marinheiros fizeram a "amarração"; segundo, que fossem arrastados para Sirte, nome grego de dois golfos rasos na costa da África. O maior desses, Sirte Maior (o golfo de Sidra), a oeste de Cirenaica, é o lugar mencionado neste versículo. Os marinheiros lhe temiam as águas rasas, cheias de rochas traiçoeiras e bancos de areia, e embora o perigo ainda estivesse a cerca de seiscentos e quarenta quilômetros de distância, estes homens do mar não queriam arriscar nada. Diz-nos Lucas que eles "arriaram os aparelhos" (assim diz o grego), que seria sua forma de mencionar a grande verga, que suporta a vela principal, embora várias outras suges­tões tenham sido apresentadas, que vão desde o lançamento da âncora (NIV) até toda a aparelhagem náutica pesada. É evidente que precisavam de algumas velas, pois de outra forma o navio ficaria inteiramente à mercê dos ventos e das ondas. O objetivo dos marinheiros não era apenas navegar bem devagar, mas controlar o rumo. Os barcos romanos com freqüência carregavam uma vela de proa, como este navio parece carre­gar (veja a disc. sobre o v. 40), e essa teria sido suficiente para mantê-lo na direção do oeste e do norte, longe dos perigos da costa africana. Assim foi que o navio se viu arrastado, e eles se deixaram levar — não totalmente impotentes, mas fazendo o quanto lhes era possível naquela situação desesperadora.
27:18-19 / No dia seguinte, arrastado agora pela tempestade para longe do abrigo de Clauda, começaram a aliviar o navio, atirando ao mar aparentemente a carga do convés (cp. v. 38; Jonas 1:5). No dia seguinte, lançaram ao mar a armação do navio (v. 19) — talvez qualquer coisa móvel que estivesse no convés. Alguns têm incluído aqui a bagagem dos passageiros, mas nesse caso esperaríamos o adjetivo possessivo "nossa", e não armação do navio. Todavia, pode ser correto acrescentar algum equipamento para uso dos passageiros, como camas, mesas, utensílios de mesa e coisas semelhantes. O comentário que os marinheiros fizeram tudo isso com as próprias mãos nos parece estranho, visto que de nenhum outro modo poderiam tê-lo feito, a menos que se intencione estabelecer um contraste entre o transe penoso atual e o equipamento padrão disponível num porto, para manuseio de cargas e aparelhagem. Há um texto (variante) do v. 19 que diz: "nós lançamos" em vez de "[eles] lançaram" que salienta o comentário sobre se o próprio Lucas estaria (de novo) envolvido em trabalho braça!. Tal redação, contudo, não tem boa aceitação.
27:20 / O pior de tudo era a incerteza sobre onde estavam. Havia já muitos dias, nem sol nem estrelas apareceram, pelo que estavam privados de todos os meios de calcular sua posição, ou até mesmo de determinar com alguma precisão a direção do navio (é claro que não dispunham de bússola). A medida que os dias passavam desvanecia-se toda a esperança de livramento ("fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos", imperfeito passivo). Tanto os passageiros como os tripulan­tes caíram no desânimo.
27:21-22 / Quando a má situação chegou ao auge, havendo eles estado muito tempo sem comer (v. 21) — o que não era incomum naqueles dias numa tempestade marítima, pelo fato de o alimento estra­gar-se, ou pela impossibilidade de cozinhá-lo, Paulo dirigiu-se às pessoas do navio. Não era a primeira vez que enfrentava os perigos de uma tempestade (2 Coríntios 11:25), e baseado em sua experiência passada e fé presente, ele tinha palavras de encorajamento para todos — não antes, porém, de permitir-se lembrá-los de que, Senhores, devíeis, na verdade, ter-me ouvido a mim e não ter partido de Creta (v. 1). "Essa característica da natureza humana, sempre disposta a provar que tinha razão, é um sinal da fidelidade de Lucas; ele não se esquece do homem no apóstolo" (Rackham, p. 497). Há um pouco de ironia na expressão paulina. O grego refere-se àquelas pessoas "ganhando" esta "perda". Entretanto, ele lhes assegurou que ninguém perderia a vida (contraria­mente à predição anterior, v. 10); só o navio é que se perderia.
27:23-24 / Paulo acrescenta umas explicações. Durante a noite o anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, havia dado a Paulo a certeza de livramento (cp. Jonas 1:9). A luz da promessa de 23:11, Paulo poderia de alguma forma sobreviver à tempestade, embora a depressão com freqüência traga dúvidas, e nenhuma razão tenhamos para excluir Paulo do desânimo que havia tomado conta de todos (v. 20). Seja como for, no que concerne a Paulo, a visão angélica lhe confirmou a promessa de que ele daria testemunho em Roma. Mas foi-lhe também dito que Deus "lhe fizera um favor" (Deus te deu todos os que... esse é o sentido do verbo grego no tempo perfeito) ao poupar as vidas das pessoas que estavam com ele. (Seria essa a resposta a suas orações em prol daquele povo? Veja a disc. sobre 1:14 e 9:11).
27:25-26 / As últimas palavras de Paulo foram um testemunho. O apóstolo exorta o pessoal do navio a ter bom ânimo, porque se podia confiar em Deus (v. 25). Eles não se perderiam no mar, contudo é necessário irmos dar numa ilha (v. 26). Este pormenor pode ter sido uma parte da revelação divina, e Paulo poderia estar falando profeticamente, como também poderia ser sua própria dedução, tirada da certeza de que todos sobreviveriam embora o navio se perdesse.

Notas Adicionais # 68

27:14 / Euro-aquilão: é palavra grega, eurakylon, que parece ser uma formação híbrida do grego euros, vento de leste, e do latim aquilo, vento do norte e, presumivelmente significa "vento do nordeste". Os gregos tinham um nome adequado para esse vento, kaikias, mas o latim não tinha um nome equivalente, pelo que os marinheiros romanos, na falta de um termo específico, aparentemente cunharam essa palavra. Ela está grafada numa inscrição latina (veja C. J. Hemer, "Euraquilo and Melita", JTS 26 [1975], pp. 101-11).
27:15 / Sendo o navio arrebatado, e não podendo navegar contra o vento: Lucas emprega linguagem gráfica a fim de descrever esse desastre. Primeira­mente, ele se refere ao navio como tendo sido "arrebatado pela força do vento", e por isso puxado para longe; em segundo lugar, fala do navio como "incapaz de encarar o vento, olho a olho" (não aparece em ECA). Era costume pintar olhos na proa dos navios, e a expressão de Lucas pode ter derivado daí, embora fosse também um termo de uso comum na vida cotidiana.
27:17 / Usaram de todos os meios, cingindo o navio: como indicamos acima, no texto grego a expressão "cingir" sugere que se empregou o processo conhecido por "amarração". Há outras sugestões segundo as quais as cordas foram amarradas longitudinalmente ao redor do casco, por fora, ou atravessando o navio, por dentro do casco, ou longitudinalmente acima do navio, da proa à popa, para evitar o abaulamento — que a quilha do navio se arrebentasse. "Cingidores", segundo se sabe, eram dispositivos do equipamento náutico grego para navios de guerra, mas não se sabe como eram usados.




O Naufrágio (Atos 27:27-44)

 27:27 / Por volta da meia-noite na décima quarta noite após terem saído de Bons Portos (alguns dizem de Clauda) os marinheiros detecta­ram sinais de terra próxima. É possível que tenham ouvido as ondas quebrando-se na praia, sugestão que tem o apoio do Codex Vaticanus que, em vez de "estavam próximos de terra" (como diz a maioria dos textos) traz "ressoando". A tradição, como regra, para procurar identifi­car um local bíblico, é inconfiável. Neste caso, todavia, temos todas as razões para achar que os navegantes chegaram, conforme diz a tradição, à baía de São Paulo, na ilha de Malta. Se assim foi, o navio teria passado dentro de um raio de quatrocentos metros de Ponto Koura, a leste dessa baía e, embora a terra aqui seja demasiado baixa para ser vista numa noite escura e tempestuosa, as ondas que se quebram podem ser ouvidas a alguma distância. Tanto o lugar como o tempo exigido para alcançar essa baía (uma distância de 475 milhas marítimas a partir de Bons Portos) parecem confirmados pelos cálculos de Smith. Presumindo-se a direção do vento (ENE) e a velocidade média de derivação de um navio grande costeando a estibordo (aproximadamente um pouco mais de três quilômetros por hora), concluiu ele que "um navio, fazendo-se ao mar ao entardecer... ao redor da meia-noite do décimo-quarto dia estaria a menos de cinco quilômetros da entrada da baía de São Paulo" (pp. 120-24).
27-28 / As suspeitas dos marinheiros se confirmaram quando eles lançaram a sonda e acharam vinte braças (trinta e cinco metros) de profundidade. Estas correspondem bem às medidas tomadas no Ponto Koura, próximo da baía de São Paulo. O homem que lançava a sonda estaria gritando as medidas, de tal forma que Lucas e o timoneiro podiam ouvi-las.
27:29 / A proximidade de terra exigia medidas de segurança, pelo que lançaram da popa quatro âncoras para evitar que dessem de encontro às rochas, e ficaram aguardando o amanhecer. Tais âncoras eram relati­vamente leves, segundo os padrões modernos, por isto esse número (quatro) era necessário. Lançar âncoras da popa não era comum, mas lançá-las da proa teria feito o navio girar pela força do vento e, sem saber a que distância da praia estavam, os marinheiros teriam ficado em dúvida quanto a se poderiam fazê-lo voltar à posição normal, e fazê-lo fundear pela manhã.
27:30 / Mas a tripulação, ou pelo menos alguns tripulantes — não sabemos quantos homens compunham a tripulação, nem o tamanho do barco — não teve calma para esperar o amanhecer. Para eles, que "cada um cuidasse de si próprio", e fingindo que eram necessárias mais algumas âncoras da proa para ajudar a estabilizar o navio, e que precisa­vam lançá-las na extremidade do cabo em vez de atirá-las do convés, colocaram o bote na água a fim de escapar. O que pretendiam fazer na escuridão da noite, numa praia desconhecida, parece-nos o cúmulo da imprudência, sendo isto tudo que se poderia dizer a respeito. Qualquer pessoa ajuizada teria considerado o próprio navio, muito maior, bem mais seguro, pelo menos até o amanhecer. Por outro lado, é possível que desejassem sinceramente lançar mais âncoras, e que a intenção deles havia sido mal interpretada pelos passageiros.
27:31-32 / Seja como for, Paulo apelou para o instinto de autopreservação dos marinheiros (não podereis salvar-vos, v. 31), e insistiu em que os homens ficassem a bordo. O centurião reagiu imediatamente — talvez tenha exagerado na reação — e fez que seus soldados cortassem as cordas que prendiam o barco. O resultado foi que o barco, que poderia ser útil quando todos finalmente viessem a abandonar o navio, se perdeu, mas o fato importante é que os marinheiros foram retidos (na suposição de que pretendiam fugir), e puderam ajudar a colocar o barco mais perto da praia, pois de outra forma os passageiros poderiam estar condenados à morte. Por toda a narrativa verifica-se um lindo equilíbrio entre a certeza do cuidado de Deus quanto à segurança de todos, e os esforços das pessoas para assegurá-la. Observe a autoridade com que Paulo agiu nesta situação, e também nos demais versículos.
27:33-34 / Estando amanhecendo agora, Paulo exortava a todos a que comessem alguma coisa (v. 33). O tempo todo haviam sido acos­sados pelo vento terrível, e atirados de lá para cá pelas ondas, desde Creta a este lugar (cp. Efésios 4:14), sem comer (v. 33). Diz o grego literal­mente, "nada haviam tomado". Nos navios da época não havia mesas postas, nem garções para servir as refeições. A pessoa que quisesse comer deveria ir buscar a comida na cozinha do navio. Assim, é possível que Paulo quisesse dizer que as pessoas não haviam ido buscar suas rações regulares — ou porque haviam perdido o apetite completamente, ou porque a cozinha não pudera funcionar durante a tempestade. Talvez as pessoas houvessem subsistido com algum alimento que tinham à mão, ou simplesmente haviam jejuado o tempo todo. Fosse como fosse, Paulo agora exortava a todos a que comessem. Iriam precisar de toda a sua energia, se quisessem chegar à praia. O apóstolo era um homem de fé prática (veja a disc. sobre os vv. 31s.). De novo ele lhes assegurou que estariam salvos, empregando agora o que deveria ser um provérbio na época, nem um cabelo cairá da cabeça de qualquer de vós (v. 34; cp. 1 Samuel 14:45; 2 Samuel 14:11, RSV; 1 Reis 1:52; Mateus 10:30; Lucas 21:18).
27:35-36 / Paulo acrescenta a essa exortação seu próprio exemplo; ao tomar um pouco de pão, deu graças a Deus (v. 35), partiu-o e pôs-se a comê-lo. O fato de o apóstolo haver dado graças a Deus talvez indique apenas o costume judeu e cristão de dar "graças" às refeições, e essa teria sido uma refeição comum. Entretanto, a descrição é tão parecida com várias outras descrições de refeições presididas por Jesus, e de modo especial aquela Última Ceia (cp. Lucas 9:16; 22:19; 24:30), que às vezes há quem diga que esta refeição foi "um ritual da comunhão" para dois ou três cristãos a bordo. Isto pode ser questionado, mas a ação de Paulo produziu o efeito desejado: Todos cobraram ânimo, e se puseram também a comer (v. 36).
27:37 / Lucas dá o número de pessoas a bordo: duzentas e setenta e seis. Isto às vezes surpreende os modernos leitores, levando-os a aceitar o número mais modesto de setenta e seis, que se encontra em alguns textos. Todavia, o número maior não apresenta maiores dificuldades. Muitos navios cerealistas alexandrinos de fato eram enormes. Josefo, que também havia naufragado um dia nessas águas (mar Adriático; veja a nota sobre o v. 27), foi um passageiro dentre outras seiscentas pessoas, mais ou menos, a bordo de um navio (Life 3). Lucas talvez houvesse mencionado esse número, nessa conjuntura, porque a distribuição de víveres lhe havia chamado a atenção. Mas a maravilha real é que todos se salvaram. No caso de Josefo, apenas oitenta das seiscentas pessoas sobreviveram.
27:38 / Depois começaram (talvez só a tripulação) a aliviar o navio, alijando o trigo ao mar. Outras cargas já haviam sido atiradas à água (v. 18), mas o trigo havia sido preservado até agora, em parte como lastro e em parte na esperança, talvez, de poder ser salvo. O trigo sempre havia sido muito caro em Roma. O propósito daqueles homens era tornar o navio mais leve (carregado, ficaria mais seis metros dentro da água), e assim poder aproximar-se mais da praia.
27:39 / Quando finalmente havia luz suficiente, nem assim os mari­nheiros puderam reconhecer o lugar onde estavam, mas o que mais importava no momento foi que viram uma enseada com uma praia. É possível que houvessem freqüentemente aportado em Malta (cp. 28:1), mas a baía de São Paulo é muito longe do principal porto, e não podia ser reconhecida por alguma característica distinta. O tempo imperfeito dá-nos o sentido de "tentaram reconhecer o lugar... mas não puderam". Em 28:1 temos o mesmo verbo, mas no tempo aoristo, indicando que houve pronto reconhecimento ao desembarcar.
27:40 / Na esperança de fundear o navio na areia (sendo seu objetivo salvar as pessoas, não o navio), os marinheiros lançaram âncoras da popa e soltaram também as amarras do leme —dois remos, um de cada lado. Tais remos haviam sido levantados acima da água e amarrados, estando o navio preso pelas âncoras. Ao mesmo tempo, a vela da proa (o significado da palavra grega é duvidoso, mas este seria seu sentido aqui; veja a disc. sobre o v. 17), que havia sido arriada antes do anoitecer, foi içada de novo para dar direção ao navio e, assim, dirigiram-se à praia.
27:41 / Mas o navio deu num banco de areia (lit., "lugar de dois mares"), onde ficou encalhado. Tendo vento forte por trás, não havia jeito de safá-lo dali, especialmente pelo fato de a baía de São Paulo ter "um fundo de lodo, sobreposto em argila dura, em que a parte dianteira, ou a proa, teria batido com força, enquanto a popa ficara exposta à fúria das ondas"(Ramsay, Paul, p. 341). Smith sugere que isto aconteceu no canal, a não mais que duzentos e cinqüenta metros entre a ilhota de Salmoneta e o continente. Este estreito poderia ser descrito apropriadamente "lugar onde dois mares se encontram", porque une o mar dentro da baía com o mar ao longe. Um local mais comumente aceito, entretanto, é o banco de areia chamado São Paulo, que fica à entrada da baía, o qual era mais elevado em tempos antigos. O choque da proa contra o fundo do mar, mais os impactos das ondas, teriam despedaçado a popa. Na verdade, alguns textos omitem a referência às ondas, e assim dão esse sentido ao versículo. O tempo imperfeito podia levar a esta interpretação: "começou a arrebentar-se".
27:42-44 / Estando o navio condenado, os soldados eram de opinião que todos os prisioneiros fossem mortos antes que algum dentre eles escapasse e eles fossem responsabilizados (cp. 12:19; 16:27). Todavia, querendo salvar a Paulo, o centurião estorvou-lhes este intento (v. 43) —a palavra "salvar" significa conduzir em segurança no meio do perigo. Portanto, ele deu ordens para que todos procurassem chegar à praia da melhor maneira que pudessem — os que soubessem nadar, que partissem imediatamente. Paulo poderia estar incluído aqui, visto ter sobrevivido a três naufrágios e ter passado uma noite no mar (2 Coríntios 11:25). Os que não soubessem nadar deveriam agarrar-se a tábuas e outros em destroços do navio (v. 44). A última frase todavia poderia ser traduzida assim: "às costas dos membros da tripulação". Assim foi que desta ou daquela maneira todos chegaram à terra salvos (v. 44; cp. vv. 22, 34).

Notas Adicionais #69

22:27 / Sendo nós ainda impelidos: a tradução deste verbo diapherein admite muitas acepções, visto que se supõe que "foram arrastados para diante e para trás" (RV, cp. AV), como que inteiramente fora de controle, ou que teria mantido um curso firme. Favorecendo esta última acepção, vemos que em Atos a força usual do prefixo dia expressa um movimento contínuo para a frente, avançando sobre um espaço amplo.
No Adriático, lit, "na Ádria": Adriático é o nome moderno desse mar, entre a Itália e os Bálcãs, mas nos tempos antigos era nome de uma região maior, abrangendo Malta, Itália, Grécia e Creta (cp. Ptolomeu, Geography 3.4 e 14ss.; Josefo, Lí/e 13-16).




Desembarque em Malta (Atos 28:1 -10)


28:1 / A ilha de Malta, onde os viajantes se encontravam agora, fica a cerca de noventa e seis quilômetros da Sicília. É uma ilha de cerca de trinta quilômetros de comprimento por onze de largura. A sudoeste, os rochedos cortam abruptamente o mar, mas na costa nordeste há muitas enseadas e baías. O maior porto é onde fica hoje a cidade de Valetta. A baía de São Paulo fica cerca de onze quilômetros a noroeste da cidade. Os fenícios haviam ocupado a ilha logo após o início do primeiro milênio a.C. A influência deles permaneceu forte no meio da mistura de culturas que sobreveio, e ainda era evidente, no primeiro século d.C, no dialeto cartaginês dos malteses. A ocupação fenícia ficou testemunhada em moedas e inscrições, sendo observado por Lucas em sua descrição dos malteses como sendo "nativos" (vv. 2, 4; NIV traz "ilhéus"). Algumas versões trazem "bárbaros" — não porém no sentido moderno que damos à palavra, mas como os gregos a empregavam: os povos que não falavam grego (as línguas estrangeiras soavam como "bar-bar" a seus ouvidos). Isto poderia indicar que talvez Lucas fosse grego. Malta (ou Melita) é nome fenício, e significa "refúgio". É possível que Lucas soubesse disso quando escreveu este versículo, que poderia ser parafraseado desta maneira: "Verificamos que a ilha merecia o nome que tinha". A ilha havia passado dos gregos sicilianos para os cartagineses, e destes para os romanos. Era governada agora por um procurador, que pode ter sido o Públio que Lucas menciona no v. 7.
28:2 / Os estranhos que caíssem no meio de povos tão rústicos como este com freqüência recebiam tratamento hostil. Nesta ocasião, porém, os sobreviventes se viram tratados com não pouca humanidade. Acres­centou-se a seus sofrimentos chuva e frio, de modo que a fogueira que os nativos acenderam foi um grande gesto de boas-vindas. É difícil imaginar de que modo duzentas e setenta e seis pessoas do navio puderam agrupar-se ao redor do fogo, mas é possível que Lucas esteja descrevendo apenas o que aconteceu ao grupo que incluía os cristãos. Talvez outras fogueiras tenham sido acendidas, cada uma com um grupo de náufragos.
28:3-4 / Paulo não estaria imobilizado sob o peso de uns grilhões, mas algemado com uma corrente leve. De outra forma ele dificilmente conseguiria escapar, caso o tentasse. Assim é que ele procurou ajudar de alguma forma, e pôs-se a cuidar da fogueira. Ao fazê-lo, uma víbora da lenha que ele segurava picou-lhe a mão. A primeira reação dos nativos foi a de ver nesse incidente um julgamento sobre o prisioneiro. Talvez possamos distinguir nas palavras deles, como Lucas as registrou, uma referência a Dike, a deusa grega da justiça, filha de Zeus e de Themis (de acordo com Hesíodo), ou a um de seus próprios deuses cujo nome Lucas descreveu dessa maneira. Fosse como fosse, julgaram que Nêmesis apanhara a Paulo, e que este fatalmente morreria (a Justiça não o deixa viver, v. 4). Bruce menciona um poema grego que fala de um "assassino que escapou de uma tempestade marítima, naufragou na costa líbia, e acabou morto por uma víbora" (Book, p. 522, n. 11). Se histórias desse tipo estivessem sendo contadas, não é de estranhar que os malteses reagissem dessa maneira. Tinham visto que Paulo era um prisioneiro, e supuseram a partir desse incidente que se tratava de um assassino, visto que morte exige morte.
28:5-6 / Entretanto, Paulo simplesmente sacudiu a cobra no fogo (v. 5). Talvez nem houvesse percebido tratar-se de uma víbora, estando aparentemente desinteressado, ou ciente de que estava sob os cuidados de Deus (cp. 23:11). Demonstrou-se, assim, que Marcos 16:18 diz a verdade (a menos que este texto do evangelho se baseie nesse incidente; mas cp. Lucas 10:19, e também Salmo 91:13). Nenhum efeito maligno sobreveio a Paulo. Os nativos, porém, esperavam que Paulo viesse a inchar ou a cair morto de repente (v. 6). Quando entenderam que isso não aconteceria, mudaram de opinião e passaram a dizer que ele era um deus (cp. 14:1 ls.). Como é inconstante a opinião humana! Parece que jamais pararam um pouco para pensar em como um deus poderia permi­tir-se cair prisioneiro dos romanos. A atitude de Lucas quanto a este incidente tem sido objeto de disputa. Alguns o acusam de ter comparti­lhado a opinião dos nativos sobre Paulo. Mas embora Lucas com toda a certeza acreditasse que Paulo, bem como todos os demais apóstolos, possuíssem poderes miraculosos, nunca o colocou à parte, como o fizeram os nativos, como se o apóstolo não fosse um ser humano (veja a disc. sobre 27:21). Na verdade, longe de endossar a avaliação deles, parece que Lucas tenciona zombar deles nesta passagem. Hoje não há víboras em Malta, mas ficam abaixo da crítica os que sugerem que, por essa razão, esta história não é verdadeira. Dezenove séculos de habitação humana explicam o desaparecimento das víboras (e também da lenha de fogueira nas vizinhanças da baía de São Paulo).
28:7 / Aconteceu que os náufragos desembarcaram perto das terras de um Públio, o principal da ilha. Não há certeza quanto a se Lucas com esta expressão quis referir-se ao procurador romano, ou a um mero dignitário local, mas o emprego em Malta do título de "chefe" ou "principal"(gr.protos) é confirmado por inscrições. É curioso que Lucas não nos dê seu nome completo, com sobrenome, mas apenas seu primeiro nome (veja a nota sobre 13:9). Isto pode refletir o costume local. Entretanto, se ele não era o procurador, pode ter sido cidadão romano, e Públio (gr. Poplios) seria seu único nome. Não sabemos se Públio recebeu todos os duzentos e setenta e seis náufragos, ou apenas um pequeno grupo que incluía Paulo. Visto ter sido por três dias apenas, e suas propriedades fossem grandes, com muitos escravos, talvez ele tivesse podido cuidar de um número tão grande de pessoas. Entretanto, ele o fez bondosamente, sem resmungar. E sua bondade foi recompen­sada (cp. Mateus 10:40ss.).
28:8-10 / O pai de Públio estava de cama, doente com febre [gástri­ca] e disenteria, que segundo consta são endêmicas, como a "febre de Malta". Lucas emprega o plural, ao falar de "febres" intermitentes. Então, Públio teve a felicidade de ver seu pai curado mediante a oração de Paulo e a imposição de mãos (veja as disc. sobre 1:14 e 9:11 quanto a orações, e a nota sobre 5:12 quanto a imposição de mãos). Espalharam-se bem depressa as notícias sobre essa cura, de modo que doentes da ilha toda vieram a Paulo para receber cura. Esta história tem alguma seme­lhança com a da sogra de Pedro sendo curada por Jesus; ela estava de cama com febre, e após sua cura muitos doentes chegaram depois àquela casa (Lucas 4:38ss.). Lucas emprega o pronome nos, no v. 10, o que levanta a questão: será que ele utilizou sua perícia médica, de modo que ele também teria recebido muitas honras como compensação pelos seus serviços? Todavia, Paulo é o centro das atenções sempre; Lucas deve ter sido incluído como beneficiário indireto das dádivas atribuídas ao após­tolo. A expressão grega para muitas "honras" (NIV diz "de muitas maneiras") às vezes é empregada no sentido de remuneração por serviços prestados; mas não podemos crer que Paulo ou Lucas teriam cobrado por quaisquer serviços que houvessem prestado (cp. Mateus 10:8). Em vez disso, devemos entender que tais honras foram ofertas espontâneas, expressões voluntárias de gratidão, as quais proveram os viajantes de tudo de que precisariam (haviam perdido tudo) durante o resto de sua viagem.
Lucas não apresenta nenhum comentário sobre o significado espiritual mais profundo de tais incidentes. Na narrativa da tempestade e do naufrágio, ele apresentou Paulo como profeta; na seqüência, como operador de milagres. Para Lucas isso basta. Ele não se interessa por responder às perguntas levantadas entre os leitores modernos: "Pregou Paulo o evangelho enquanto exerceu seu ministério de oração e cura? Algum habitante de Malta foi ganho para Cristo? O grupo apostólico deixou atrás de si uma comunidade cristã? O registro de Lucas silencia; podemos, porém, crer que houve aqui uma oportunidade evangelística boa demais para ser desperdiçada" (Martin, pp. 136s.).

Notas Adicionais # 70

28:1 / a ilha se chamava Malta: Expressa-se às vezes a opinião de que eles não teriam chegado à ilha de Malta (Sicula Melita), mas a Melita Ilírica (Mljet), no golfo Adriático (veja A. Acworth, "Where was St. Paul Shipwrecked? " JTS 24 [1973], pp. 190-93; mas veja também C. J. Hemer, "Euraquilo and Melita", JTS 26 [1975], pp. 101-11). Esta teoria baseia-se numa definição muito estreita do mar de Ádria, que ao redor do décimo século d.C; quando esse conceito foi comentado pela primeira vez, limitava-se, como agora, ao braço de mar exis­tente entre a Itália e os Bálcãs. Em todo o caso, é longe demais da rota provável do navio (veja a nota sobre 27:27).

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